Desafio para o jornalismo cidadão em 2015 – Crowdsourcing e Financiamento Coletivo

Alguns anos já passaram desde que começou-se a falar de crise no jornalismo – o que é jornalismo e não era antes, quem é ou pode ser jornalista e os modelos econômicos que o sustentam. Apesar disso o acesso à espaços jornalísticos parece aumentar progressivamente, ao menos os digitais, basta dar uma rápida olhada nas redes sociais. Jornalismo é usado politicamente a todo momento e por isso está longe de desaparecer, mas para permanecer se transforma.

Os anos de 2013 e 2014 foram marcados por movimentações políticas no Brasil e no mundo, e junto surgiram inúmeros indivíduos e coletivos propondo-se a produzir jornalismo e junto aumentou-se o questionamento aos chamados veículos tradicionais de mídia. Bem, tínhamos pessoas querendo produzir jornalismo de maneira alternativa, era então necessário mudar o que tornava o jornalismo tradicional aquela massa velha e bolorenta, para muitos sua principal fonte de financiamento, anunciantes e estratégias de vendas.

Bastante anterior à isso vimos a ascensão do crowdsourcing, tendo a Wikipedia como grande exemplo, mostrando sua entrada em quase todo o universo digital. Nos anos que seguiram a prática ganhou maior alcance, inclusive por jornalistas. Na esteira das manifestações que vimos aqui no Brasil os novos jornalistas abraçaram o crowdsourcing rapidamente, talvez por ser uma maneiras de reduzir custos e dividir o trabalho. Não tardou para que se voltassem para uma variação específica do crowdsourcing para financiar seu trabalho, ainda sem um nicho bem estabelecido, o crowdfunding ou o financiamento coletivo.

Nos últimos dois anos tivemos um crescimento considerável no número de projetos voltados para o jornalismo e o Reportagem Pública(2013) foi um exemplo notável, talvez o projeto brasileiro na área mais bem financiado com R$58.953, porém a foi uma campanha difícil, atingiu a meta bem próximo ao final (algo comum em financiamento coletivo) e se valeu de muito apoio de outros meios de comunicação de grande circulação (blog da Carta Capital, Revista Fórum, Opera Mundi, Revista TPM). Foi um marco sim, não apenas pelo valor arrecadado mas pelo diálogo que foi capaz de estabelecer tanto com os apoiadores (estes participaram da última etapa da seleção de reportagens que seriam financiadas, numa reunião de pauta construída colaborativamente) quanto com o momento histórico do país – ano de copa do mundo, de manifestações da rua, de pedidos por transparência e de opressão estatal.

Imagem amlamente utilizada pela Agência Pública na divulgação de sua campanha nas redes sociais.

Imagem amplamente utilizada pela Agência Pública na divulgação de sua campanha nas redes sociais.

Abordei a camapanha da Reportagem Pública em outro artigo escrito faltando 9 dias para o fim da campanha e apenas 58% da meta havia sido cumprida e, a partir disso, levantei algumas hipóteses sobre o porque da dificuldade de uma campanha tão bem elaborada e divulgada e um ponto parece permanecer atual, o espaço do jornalismo no imaginário.

Ser tratado como produto convencional, que se compre e vende, causou uma desassociação entre que é o próprio jornalismo e o que é o seu suporte: a revista, o jornal impresso ou mais atualmente o acesso pago à serviços premium. Estes suportes em sua grande maioria chegam até nós abarrotados de anúncios publicitários e eles próprios passam a se adequar à eles e não ao jornalismo. Os corpos que compõe uma redação jornalística distribuem-se entre repórteres, escritores, editores, diagramadores etc, mas não à um publicitário que produz todas aqueles anúncios que preenchem muitas vezes mais da metade da revista/jornal. Em alguns casos existem publicitários do próprio veículo voltado para promover suas vendas, mas os anúncios dos quais falo são espaços e correspondem a uma forma de aumentar as margens de lucro. E amarrar as pautas, afinal ao publicar uma matéria que critique um dos seus anunciantes corre-se o risco de perdê-lo. O jornalismo portanto não é o produto material (ou digital).

O que é o jornalismo então?

Não existe uma resposta pronta, mas nestes casos de financiamento coletivo onde também há a participação  do público (além do apoio financeiro) é possível voltar-se ao processo do jornalismo. Ao ser feito ele reúne materiais diversos, fontes como relatos de testemunhas, gravações de áudio, vídeo, fotografia, debate (na internet realizado principalmente por comentários) e rede de distribuição, onde os interessados aumentam a dispersão do material produzido afim de gerar efeitos, que vai desde o informar até buscar transformação política – noticiar a morte de um manifestante por um policial, especialmente acompanhado de vídeo, causa efeitos políticos.

Para o financiamento coletivo do jornalismo eu apontaria esta desassociação do jornalismo como produto como o grande desafio. Apoiadores de campanhas jornalísticas não receberão apenas uma revista, jornal ou acesso antecipado à uma matéria como recompensa ao seu apoio e também não fazem apenas uma doação, como um ato de caridade. Eles participam do processo de seleção do que será ou não noticiado. No caso da Reportagem Pública houve ainda uma participação na seleção dos projeto, mas mesmo em outros formatos de campanha  esta participação na seleção está implícita. Ao financiar o projeto A notícia por quem vive: recontando a história da CDD o apoiador determinou que aquelas histórias da Cidade de Deus seriam contadas, o que não aconteceria sem seu apoio.

O mesmo não pode ser dito ao comprar uma revista semanal. Que determina suas pautas são os editores e ainda que estas escolhas obedeçam demandas de mercado – caso a revista não atenda o desejo de seus compradores/assinantes suas vendas caem – é um processo que leva tempo e no qual o indivíduo tem pouco poder, diferentemente do que acontece num financiamento coletivo, onde a resposta é obtida ao fim da campanha de levantamento de dinheiro (ou mesmo antes) – a reportagem será ou não feita e só!

A Agência Pública anunciou que lançará na próxima semana (com início no dia 18) uma segunda edição do Reportagem Pública e já busca recorre à sua base de leitores e potenciais apoiadores para sua campanha de financiamento coletivo.

Que o ano de 2015 acene positivamente ao jornalismo cidadão e ao seu financiamento coletivo, que o público participe do seu processo e que transformem-se as percepções.

Para mais informações sobre o financiamento coletivos e jornalismo indico os seguintes links:

A vaquinha não foi pro brejo: como o financiamento coletivo pode ajudar o jornalismo -> Trabalho de conclusão de curso da jornalista Marcela Donini publicado na forma de ebook, onde aborda o financiamento coletivo de jornalismo sob diversas perspectivas.

Os dez mandamentos do crowdfunding -> texto de Natália Viana da Agência Pública compartilhando suas experiências e oferecendo sugestões para o financiamento coletivo no jornalismo.

O financiamento da imprensa alternativa -> trabalho acadêmico detalhado sobre o financiamento coletivo no jornalismo, escrito à cinco mãos.

Anúncios

Compartilhe ideias!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: