Jornalismo-Ciborgue

Arte de Mark Allen Miller para a revista Wired.

They said Ned Ludd was an idiot boy
That all he could do was wreck and destroy, and
He turned to his workmates and said: Death to Machines
They tread on our future and they stamp on our dreams.
Robert Calvert in Ned Ludd

O medo das máquinas tomarem o espaço dos seres humanos vem já de algum tempo. Dentro de um contexto capitalista de trabalho, foi bem personificado na figura de Ned Ludd, uma figura folclórica que num surto de raiva atentou contra máquinas de tecelagem, realizando o gesto simbólico de início de uma guerra às máquinas, antes que estas tomassem o espaço do trabalhador . É um medo esperado de alguém vive sob a égide de um sistema econômico em que o valor humano se dá pela capacidade de vender sua força de trabalho. Caso uma máquina faça o mesmo que o trabalhador faz com um custo menor, ele será descartado e condenado à marginalidade, até que se faça útil (produtivo) novamente.

Do surgimento do Jornalismo profissional

No final da primeira década deste milênio nasceram algumas empresas propondo criar robôs-jornalistas, entre elas a StatSheet (em 2007)  e StatMonkey (em 2009) . Ambas foram criadas para a cobertura de eventos jornalísticos, notícias que por padrão são bastante formatadas e previsíveis na estrutura, segundo Steven Levy, em um artigo na Wired:

Most news stories, particularly about subjects like sports or finance, hew to a pretty predictable formula, and so it’s a relatively simple matter for the meta-writers to create a framework for the articles.

O que permite a robotização do processo de produção de texto jornalístico não é próprio apenas do jornalismo esportivo, mas é da prática profissional do jornalismo, e nos remete à sua invenção. Jean Chalaby (2004) a situa no século XIX, quando o jornalismo torna-se um gênero distinto e estabelecem-se normas e valores discursivos, entre eles a neutralidade e objetividade. Isso em meio a uma disputa entre os modelos francês e os modelos anglo-americano (e britânicos, em menor medida) – Prevost-Paradol, um renomado autor da época, afirmava que o primeiro modelo era “em geral, pobremente informado” e deixava muitas “coisas vagas e muita informação insuficiente” (Chalaby, 2004, pp30-31), enquanto no segundo havia a “extensão e o rigor da sua informação” como característica mais importante.

Em um levantamento Chalaby nos trás que a informação nos jornais anglo-americanos e britânicos era em relação aos correspondentes franceses: mais abundante; atualizada com maior frequência; mais acurada, completa, objetiva e neutra (os jornais franceses tinham por procedimento comentá-las segundo os posicionamentos do jornal); mais internacional (devido à maiores recursos para manter correspondentes internacionais); mais factual (os ditos fatos se perdiam em meio aos comentários do redator); e, por fim, mais crível.

Ao nos apresentar estes fatos, Chalaby não problematiza o que é informação. Tiziana Terranova, no primeiro capítulo de sua obra Network Culture, relê algumas proposições de Claude Shannon sobre o que é informação que podem nos ajudar a pensar estes problemas anteriores:

1. Informação é o que se destaca do ruído

A opinião do redator francês seria o ruído, já a objetividade e a factualidade do redator anglo-americano e britânico seriam mecanismos para combatê-lo.

2.  A transmissão de informação implica a comunicação e exclusão de alternativas prováveis

Existem informações que são relevantes ao texto, no modelo anglo-americano e britânico, que são dados, informações que mais se aproximem das ideias de neutralidade e objetividade, então aqui se fecham as possibilidades, se excluem as alternativas não-prováveis ou não-desejáveis, como opiniões do jornalista – exceto se descriminadas e para isso foi criada a categoria duvidosa “jornalismo de opinião”.

3. Informação implica numa relação não-linear entre o micro e o macro

Na impossibilidade da representação da totalidade dos acontecimentos, descreve-se o macro, tanto através de uma modulação da informação (o que aqui se refere ao suporte e ao formato do próprio texto jornalístico), quanto pela dimensão dos jornais – Chalaby (2004, pp31-32) diz que os jornais anglo-americanos e britânicos tinham, até 1890 de 10 à 16 páginas, enquanto os franceses chegavam à um máximo de 6.

Remontar estes eventos, sabendo que o modelo anglo-americano e britânico prevaleceu, nos ajuda a entender a formação do jornalista profissional atual e pensar nas implicações disso no processo de robotização da produção jornalística. Num contexto em que produzir notícias jornalísticas é trazer compilações de dados na forma de prosa não é de se espantar que uma robô possa fazer o trabalho do jornalista – é um trabalho mecânico por definição.

O Jornalista-Humano, o Jornalista-Robô e o Jornalista-Ciborgue

O jornalista Levy coloca que robôs têm vantagens das quais o jornalista humano poderia se beneficiar, como sua memória e a capacidade de trabalhar com dados, suficientemente robustas para lidar com incontáveis variáveis, compará-las e extrair implicações (e não conclusões) disso. O robô é capaz de lidar com um campo textual que está além do alcance do jornalista-humano, que, antes do advento dos computadores, tinha que (tentar) lidar com ele. Agora com o ingresso dos robôs na redação jornalística o jornalista-humano pode passar a se ocupar de outra tarefa de escrita. No caso do jornalismo esportivo, enquanto o jornalista-robô se preocupa com a somatória das distâncias rebatidas por um rebatedor ao longo de toda temporada passada e a constância em suas trajetórias, o jornalista-humano pode se ocupar de questões sensíveis, por exemplo a preocupação causada por uma proposta de mudança do patrocinador do time, ou um conflito religioso dentro da equipe influenciando todos ao longo da temporada – ou ainda questões mais ligadas a crônica jornalística.

O que Levy sugere é uma relação simbiótica em que a máquina fornece a capacidade de processamento de dados e o humano seus dotes de contador de histórias. O jornalista-humano estenderia suas capacidades, integrando a máquina dentro de si – o jornalista, não o homem. O jornalista-humano pararia de atuar como tal e tornaria-se um jornalista-ciborgue, cujo os limites do seu ser não estão mais contidos apenas no invólucro de carne que é uma parcela sua, mas nas conexões que este faz com a máquina e que a máquina faz com o mundo.

Fora de um contexto capitalista onde a quantidade produzida e a possibilidade de acúmulo de capital através dela são determinantes do processo de produção, seria uma relação interessante para ambas as partes, porém não é o caso. Se há a manutenção deste modelo objetivista e neutro do jornalismo, o contador de histórias terá que buscar outra profissão, pois o robô tende a ter o custo diluído na sua ausência de encargos trabalhistas e reclamações.

O jornalismo profissional, se afirmando nos mesmo e ultrapassados valores de objetividade, neutralidade/imparcialidade e produtividade, parece caminhar rumo ao desaparecimento do jornalista-humano.

Referências:

CHALABY, Jean. O Jornalismo como invenção anglo-americana: comparação entre o desenvolvimento do jornalismo francês e anglo-americano, 1830-1920. in Media&Jornalismo, Vol. 3, No 3. 2004. PP29-50

HARADAY, D. A Cyborg Manifesto Science, Technology, and socialist-feminism in the late twentieth century in Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature NEW YORK; ROUTLEDGE. 1991. PP.149-181.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 3. ed. São Paulo. Ed. Loyola. 2000.

TERRANOVA, Tiziana. Network Culture: Politics for the Information Age. Londres, Pluto Press, 2004.

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2 thoughts on “Jornalismo-Ciborgue

  1. Bacana o texto, gostei das referências. De fato, a busca pela “objetividade” e “neutralidade” da imprensa está se mostrando cada vez mais inútil — os movimentos e manifestações que atingiram o País mostram bem que há uma horda de insatisfeitos com a imagem que boa parte da mídia vende e que a gente sabe ser impossível de atingir. Aquela frase já tão repetida cabe bem aqui “a transparência é a nova objetividade”. E qual é o melhor lugar para o jornalismo ser transparente? Na minha opinião, a rede tem a topografia natural da transparência. Bora divulgar documentos, aceitar participação da população na escolha e apuração das pautas etc.
    Acho que se a gente pensar bem, nem sei se existe ainda o “apenas” jornalista-humano, a simbiose com as máquinas é algo inevitável, já aconteceu, em sua maioria em um nível moderado, inicial ainda, mas já aconteceu, sim. Talvez nem todos tenham se dado conta disso. Não sei se consigo visualizar a figura do jornalista-robô, porque por trás do robô teve um humano, então, ao que me parece, aquele programa robô que escreve um texto, por exemplo, na verdade já é uma extensão do jornalista-ciborgue.
    Sei lá, tô viajando aqui!
    Beeijo

  2. […] desenrolar do próprio processo de estabelecimento do jornalismo profissional, o qual abordei num artigo em meu blog sobre jornalismo gerado por robôs. O jornalismo é vendido como um produto, um commodity informacional que se configurou como tal […]

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