Jornalismo Livre: uma proposta para a incorporação da liberdade na prática jornalística

Por Rafael Evangelista e Tiago Soares

Data de Publicação: 14 de Maio de 2007

Este texto, escrito por mim e por Tiago Soares, foi apresentado no II Congresso Online ? Observatório para Cibersociedade. É uma tentativa de aproximação entre o jornalismo e o processo de produção do software livre.

O termo Open-Source Journalism, ou Jornalismo de Código Aberto, foi utilizado pela primeira vez em um artigo da revista eletrônica Salon, em outubro de 1999 (1). O termo serviu como título do texto em questão, que comentava inovadora iniciativa da Jane’s Intelligence Review, publicação norte-americana dedicada a assuntos de segurança internacional (“a must-read on your average CIA spook’s list”, nos termos do autor). Antes de publicar um texto, o editor da Jane’s o submeteu à avaliação dos leitores do Slashdot, tradicional site dedicado, principalmente, a comentários e notícias sobre Tecnologia da Informação. O editor buscava a avaliação de especialistas a respeito de tópico sobre o qual admitia conhecer muito pouco, o cyberterrorismo. Os leitores do Slashdot, no entanto, não apenas mostraram alguns erros pontuais, como também desqualificaram completamente o artigo submetido. O editor resolveu, então, desprezar completamente o artigo antigo e redigir um completamente novo, criado a partir de comentários e de trechos de textos enviados pelos leitores do Slashdot.

Mark Deuze afirma ser a prática descrita acima a forma pura do Open-Source Journalism, descrevendo-a como: “O uso das assim chamadas fontes ‘abertas’ na internet para a checagem dos fatos” (2). E continua: “A idéia fundamental por trás do Open-Source Journalism parece ser uma forma avançada de jornalismo comunitário, cívico ou público: envolvendo a audiência na (manufatura das) notícias, criando sites com conteúdos específicos, criado por seus usuários (…)”. Nesse sentido, sua definição se aproxima da contida no Wikipedia ? este também um site algo inspirado na filosofia do conteúdo criado pelos usuários. Na própria Wikipedia o Open-Source Jornalism é descrito como um “primo próximo” do Citizen Journalism ou Participatory Journalism.

Em “We Media: how audiences are shaping the future of news and information”, os autores apresentam uma definição para o participatory journalism (3): “The act of a citizen, or group of citizens, playing an active role in the process of collecting, reporting, analyzing and disseminating news and information. The intent of this participation is to provide independent, reliable, accurate, wide-ranging and relevant information that a democracy requires. Participatory journalism is a bottom-up, emergent phenomenon in which there is little or no editorial oversight or formal journalistic workflow dictating the decisions of a staff. Instead, it is the result of many simultaneous, distributed conversations that either blossom or quickly atrophy in the Web’s social network.”

Catarina Moura (4) cita o Slashdot como um site que marca o início da era do Open-Source Journalism. Embora nem seu criador e principal administrador, Rob Malda (5), considere o Slashdot como uma publicação de caráter jornalístico ? e a própria autora o classifique como sendo algo entre “a webzine e o fórum” – ela destaca algumas características que o aproximam da idéia de Open-Source Journalism, como: “permitir que várias pessoas (que não apenas os jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim a proliferação de um pensamento único, como o que pode ser aquele difundido pela maioria dos jornais, cuja objectividade e imparcialidade são muitas vezes máscaras de um qualquer ponto de vista que serve interesses mais particulares que apenas o de informar com honestidade e isenção o público que os lê”.

Fundamentalmente, porém, o que o Slashdot publica são notícias. Estas podem ser escritas por seus usuários ou apresentadas apenas na forma de links para outros sites. Embora possam publicar textos próprios ? algo, porém, raro ?, a intervenção do usuário não se dá propriamente no texto da notícia, mas sim na pontuação que atribui a cada link e nos (também pontuados) comentários que faz. Lucilene Breier (6) descreve o processo: “… a moderação é feita ‘em massa’, na expressão de Malda. Qualquer leitor regular do Slashdot pode passar a ser moderador. Essas pessoas recebem um número limitado de ‘pontos de influência’ (cinco) como na estrutura dos 400 Lucky Winners, cujo valor expira em três dias. Elas vão classificar as mensagens deixadas pelos leitores em uma escala que vai de -1 a 5, num valor crescente de qualidade da informação. Nenhum comentário é deletado (exceto se houver problemas técnicos de formatação de HTML), apenas os que forem considerados ruins recebem notas negativas e só serão vistos se o leitor configurar essa opção em seu perfil pessoal na página (thresholds).”

A comunidade de leitores do Slashdot foi o patrimônio decisivo para a experiência que acabaria por dar origem ao termo Open-Source Journalism. Dirigido ao público interessado em Tecnologia da Informação, seus frequentadores, em geral, comungam do “espírito open source”, ou seja, aprovam a idéia que baseia tanto o movimento open source como o movimento software livre: os programas de computador (ou seriam as notícias?) devem poder ser livremente usados, copiados, modificados e distribuídos.

Mas há algo que caracteriza o movimento open source (e também o software livre, embora esta não seja sua ênfase), que o aproxima ainda mais da primeira experiência do Open-Source Journalism e do veículo onde foi realizada, o Slashdot. O termo Open Source e sua instituição política, a Open Souce Initiative, surgem sob forte influência da obra “A Catedral e o Bazar”, de Eric Raymond. Nela, Raymond critica um determinado modelo de desenvolvimento de software (que chama de Catedral) em que o código é controlado por um pequeno grupo, que o desenvolve de uma maneira centralizada. No livro, ele elogia o método que teria sido aplicado por Linus Torvalds no desenvolvimento do kernel Linux, em que Torvalds disponibilizaria com frequência o código que estava desenvolvendo e, assim, receberia sugestões e relatos de testes feitos por uma gigantesca e independente comunidade de usuários/programadores na internet. “Libere cedo, libere frequentemente [o código]”, é um dos princípios do desenvolvimento que Raymond chama de Bazar.

O livro de Raymond marca também o começo de uma cisão fundamental no movimento FLOSS (Free/Libre/Open Source Software). A crítica dirigida ao modelo Catedral atinge Richard Stallman, o fundador da Free Software Foundation e responsável pela criação do termo software livre — e tido por Raymond como centralizador e controlador.

Se a idéia dos “milhares de olhos” (que inspecionam e referendam o código-tornado-notícia na prática Open-Source Journalism) está presentes no Slashdot, outras iniciativas mais recentes incorporam também o princípio da reformulação e das novas versões. A tecnologia wiki, que permite que as páginas da internet sejam reformuladas e alteradas, deu origem a projetos mais ousados, como o Wikipedia e o Wikinews.

O Wikipedia se propõe a ser uma enciclopédia construída colaborativamente. Qualquer leitor pode acrescentar ou corrigir qualquer tópico, e eventuais alterações mal-intencionadas podem ser apagadas, recuperando-se a página original. A iniciativa já é um sucesso, e a maioria de seus tópicos tem uma qualidade semelhante à das enciclopédias tradicionais. O Wikinews, por sua vez, pretente conseguir o mesmo ambiente colaborativo, mas para a produção de notícias. Cabe aos leitores produzir pautas e alterar os textos noticiosos, e o material produzido tem autoria coletiva. Os resultados, até o momento, são mais modestos dos que os alcançados pelo Wikipedia, e algumas dificuldades inerentes a essa idéia serão analisadas aqui.

Dificuldades e desafios

Embora seja uma experiência bastante interessante, a aplicação do chamado esquema “Bazar” ao jornalismo traz alguns problemas e limitações. Antes, porém, há de se afirmar suas virtudes. Entre elas (e talvez seja a principal) está o rompimento com o esquema “de cima para baixo” para a produção de notícias, algo que se assemelha muito à ideologia de independência dos produtores e desenvolvedores do software livre, em que grupos ou indíviduos que discordam de um projeto em desenvolvimento são capazes de dar um direcionamento autônomo e independente ao que produzem ? os chamados “forks”. Tal condição só é possível porque o código (informação) é livre.

Porém, nos dois projetos que aqui consideramos como exemplares do que tem sido chamado de Open-Source Journalism — o Slashdot e o Wikinews –, essa condição do leitor que é livre para usar/modificar/alterar/copiar a notícia é interpretada de modo diferente. No Slashdot, cabe ao leitor comentar/validar/selecionar uma determinada notícia, e essa sua contribuição é algo que se acrescenta, quase que modularmente (pois não interfere no texto), à notícia original. Já no Wikinews a contribuição é completa, materializada na alteração do texto original, em que a participação de vários indivíduos se funde.

Temos então que, no Slashdot, a contribuição dada pelos leitores/moderadores não incide diretamente nos textos publicados. A estes apenas são acrescentados comentários, que referendam ou reprovam a notícia publicada em um veículo tradicional. Outra face da contribuição desses leitores é a escolha do material em si, que cria para todos uma seleção de leitura dirigida pelo gosto médio do público de avaliadores do site.

No caso do Wikinews, a contribuição dos leitores é mais radical: todos podem alterar o texto, com a versão a ser exibida sendo a mais recente (embora as prévias possam ser recuperadas). Cada texto é fruto da contribuição de um coletivo anônimo de pessoas, dirigidas apenas pela política de “imparcialidade” descrita no projeto editorial. Quem assume a autoria é o coletivo, e, imagina-se, o texto será o mais próximo possível da média das opiniões dos autores.

Quanto à credibilidade e linguagem, esse modelos de Open-Source Journalism dão origem a alguns efeitos: a credibilidade desloca-se para o campo do coletivo, informações são tidas como confiáveis se fiscalizadas e reconfiguradas por batalhões de gatekeepers-redatores-editores-moderador es; ao mesmo tempo, a linguagem, mesmo distanciando-se das regras dos grupos de mídia, adapta-se ao todo da “construção coletiva”, o que, de certo modo, não deixa de ser uma pasteurização. Em meio a um mar de informação produzida coletivamente, ambos projetos parecem pautar-se pela média do gosto (ou das visões, ou das opiniões) geral.

Há ainda outro reparo a ser feito no que tem sido chamado de Open-Source Journalism. Nos EUA, e nos países de língua inglesa de um modo geral, a palavra open source tem sido usada para designar tanto o software livre como o código aberto (open source). Os movimentos, no entanto, são bastante distintos.

Não cabe discutir aqui as razões de o termo open source ter se tornado mais popular. Vale, porém, lembrar que uma das características do movimento open source foi a de ser mais atraente aos setores conservadores, especialmente aos empresários. Enquanto o movimento software livre (e a FSF) é reconhecido pelo rigor com que defende as chamadas quatro liberdades básicas (executar o software, estudar e modificar o código fonte, copiar e distribuir cópias modificadas do software), o movimento código aberto assume, em nome da obtenção de resultados práticos, a construção de um discurso considerado “menos ideológico”. Enquanto o movimento software livre defende a inexistência da distinção entre usuários e produtores, lembrando que todos devem ser livres para alterar o código, o movimento open source aceita a persistência da categoria “usuário”, e acredita na distinção entre produtores e consumidores de código (7).

Cabe então perguntar: será que o termo “open source” é o mais adequado para se fazer referência a projetos que buscam democratizar a produção jornalística? Não seria mais interessante a uma proposta jornalística que se pretende democrática e participatória estabelecer laços com o movimento free software em lugar do movimento open source?

Jornalismo livre: uma proposta

Acreditamos ser importante romper com duas características dos projetos que buscam uma produção de mídia mais aberta, livre e participativa: a utilização do termo open source e a dependência do modelo Bazar.

Para isso, propomos a utilização do conceito de Jornalismo Livre e, com ele, a construção de uma nova metodologia que incorpora, de uma maneira mais orgânica, a liberdade proposta pelo movimento software livre. Neste sentido, é importante levar em consideração ser esta uma proposta baseada numa intrínseca relação entre o trabalho jornalístico e sua plataforma tecnológica – no caso, o ambiente web, e sua variada gama de tecnologias (ferramentas de publicação dinâmica, hiperlinks, compartilhamento de dados, entre outros) que, inevitavelmente, levam a uma revisão da linguagem e da dinâmica do jornalismo.

Seria necessário, portanto, refletir sobre o frenético intercâmbio informacional do mundo online, novas possibilidades tecnógicas para a produção e gerenciamento dessa informação e, principalmente, o papel do jornalista como mediador desse fluxo.

Para apresentarmos uma proposta de jornalismo colaborativo em suporte web, partimos do princípio segundo o qual o jornalista seria, simplificadamente, o responsável pelo levantamento do fato ou informação, sua checagem, sua análise em vista de outros fatos ou informações e, finalmente, da “construção” de “recorte” determinado da realidade. para apresentarmos uma proposta de jornalismo colaborativo em suporte web.

Pensamos que a analogia mais interessante e produtiva a ser feita é entre o trabalho do jornalista e a função desempenhada pelos programas compiladores. A liberdade do movimento software livre não se baseia no compartilhamento de programas em sua forma “executável”. Se assim fosse, os desenvolvedores não seriam capazes de alterá-lo e modificá-lo. É a partir do código-fonte compartilhado que outros programas, melhores ou simplesmente com funções diferentes, podem ser criados. A partir do código fonte livre, o desenvolvedor incorpora suas idéias, sua visão. Só então o código fonte alterado é “compilado”: ou seja, verifica-se se aquilo tudo é consistente, se é adequado àquela máquina (realidade), e um programa executável é gerado e pode ser utilizado por todos.

Da mesma forma, o jornalismo livre deve partir do compartilhamento, da abertura de suas fontes. Ou seja, da pesquisa que o jornalista realiza para dar origem ao seu texto final (seu “programa executável”). Este, depois de pronto, deve possuir unidade, ser a visão consolidada e referendada por um determinado autor, que foi responsável por compilar todas as informações, verificar sua consistência, contrapô-las à sua experiência e história de vida (seu “hardware”) e dar seu formato final. Claro, a atividade de um jornalista não se resume à compilação. Esta é apenas uma analogia interessante, que nos serve para orientar um modelo de texto pensado principalmente ? mas não exclusivamente – para a internet.

O Jornalismo Livre apostaria também na credibilidade do autor, em seu mérito como indivíduo responsável pelo “processamento da informação”. Uma vez que disponível na web, o material jornalístico a servir como base para seu trabalho é deixado à disposição do leitor, verificável. Este pode livremente assumir a posição de seu predecessor, se relacionar com as mesmas fontes, acrescentar outras (ou não) e produzir um outro texto, com outra interpretação.

No que diz respeito à linguagem, cada jornalista/compilador tem a liberdade para (dentro dos limites do ofício jornalístico) certa experimentação, tentativas de inovação quanto à estrutura, forma etc, nas quais a obra relaciona-se com o autor como um trabalho fechado, pensado em seus vários níveis. Por individual, variado em resultados e inovações, permitiria diálogo possivelmente rico.

O Jornalismo Livre pode, inclusive, ter regras que permitam toda e qualquer reconfiguração do texto. Assim como a versão executável de um software pode ser recompilada se contiver as fontes, isso também pode acontecer com o texto. Para cada texto livre produzido deve ser possível gerar uma nova versão, que pode ser um aperfeiçoamento (conter mais pesquisa) ou apenas uma nova formulação do texto original, em que se novos sentidos são construídos pois as fontes são olhadas sob outra perspectiva.

A regra para um texto livre deve ir além da permissão de republicação. Deve conter obrigações como as existentes em documentos como a GPL, a licença mais usada pelos softwares livres. A GPL propõe que o código fonte deve sempre acompanhar o programa executável e que novos programas gerados a partir de códigos fontes livres também devem ser livres. Para o Jornalismo Livre, a regra deve ser a mesma: um texto produzido a partir de material livre também deve manter suas fontes livres. Claro, nem sempre é possível revelar as fontes no jornalismo ? debater normas a partir desse princípio, porém, pode resultar em experimentos interessantes.

Apesar de incipiente como proposta, as perspectivas são animadoras se analisadas as possibilidades tecnológicas para o compartilhamento de dados – além de hiperlinks para textos técnicos, ensaios, documentos oficiais e outros textos jornalísticos, seria possível, também, por exemplo, a disponibilização de gravações de entrevistas em suporte digital, ou de arquivos de texto com entrevistas via email, entre outros.

Conclusão

A internet e a informática oferecem novos recursos que ainda não foram produtivamente assimilados para uma transformação qualitativa da produção jornalística. O movimento software livre tem mostrado, desde a década de 1980, como é possível fazer uso das novas tecnologias no sentido de que seja alterada a relação entre produtores e consumidores. Cabe ao jornalismo fazer uso da tecnologia também para esse fim, oferecendo aos leitores a possibilidade de adotarem não somente uma posição passiva de consumidores de informações. Fazer isso é ainda, intrinsecamente, aumentar a transparência da atividade jornalística, permitindo a checagem das informações coletadas e das interpretação feitas.

Notas

Este texto foi publicado originalmente na página Dicas-l, sob a licença:

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