Desafio para o jornalismo cidadão em 2015 – Crowdsourcing e Financiamento Coletivo

Alguns anos já passaram desde que começou-se a falar de crise no jornalismo – o que é jornalismo e não era antes, quem é ou pode ser jornalista e os modelos econômicos que o sustentam. Apesar disso o acesso à espaços jornalísticos parece aumentar progressivamente, ao menos os digitais, basta dar uma rápida olhada nas redes sociais. Jornalismo é usado politicamente a todo momento e por isso está longe de desaparecer, mas para permanecer se transforma.

Os anos de 2013 e 2014 foram marcados por movimentações políticas no Brasil e no mundo, e junto surgiram inúmeros indivíduos e coletivos propondo-se a produzir jornalismo e junto aumentou-se o questionamento aos chamados veículos tradicionais de mídia. Bem, tínhamos pessoas querendo produzir jornalismo de maneira alternativa, era então necessário mudar o que tornava o jornalismo tradicional aquela massa velha e bolorenta, para muitos sua principal fonte de financiamento, anunciantes e estratégias de vendas.

Bastante anterior à isso vimos a ascensão do crowdsourcing, tendo a Wikipedia como grande exemplo, mostrando sua entrada em quase todo o universo digital. Nos anos que seguiram a prática ganhou maior alcance, inclusive por jornalistas. Na esteira das manifestações que vimos aqui no Brasil os novos jornalistas abraçaram o crowdsourcing rapidamente, talvez por ser uma maneiras de reduzir custos e dividir o trabalho. Não tardou para que se voltassem para uma variação específica do crowdsourcing para financiar seu trabalho, ainda sem um nicho bem estabelecido, o crowdfunding ou o financiamento coletivo.

Nos últimos dois anos tivemos um crescimento considerável no número de projetos voltados para o jornalismo e o Reportagem Pública(2013) foi um exemplo notável, talvez o projeto brasileiro na área mais bem financiado com R$58.953, porém a foi uma campanha difícil, atingiu a meta bem próximo ao final (algo comum em financiamento coletivo) e se valeu de muito apoio de outros meios de comunicação de grande circulação (blog da Carta Capital, Revista Fórum, Opera Mundi, Revista TPM). Foi um marco sim, não apenas pelo valor arrecadado mas pelo diálogo que foi capaz de estabelecer tanto com os apoiadores (estes participaram da última etapa da seleção de reportagens que seriam financiadas, numa reunião de pauta construída colaborativamente) quanto com o momento histórico do país – ano de copa do mundo, de manifestações da rua, de pedidos por transparência e de opressão estatal.

Imagem amlamente utilizada pela Agência Pública na divulgação de sua campanha nas redes sociais.

Imagem amplamente utilizada pela Agência Pública na divulgação de sua campanha nas redes sociais.

Abordei a camapanha da Reportagem Pública em outro artigo escrito faltando 9 dias para o fim da campanha e apenas 58% da meta havia sido cumprida e, a partir disso, levantei algumas hipóteses sobre o porque da dificuldade de uma campanha tão bem elaborada e divulgada e um ponto parece permanecer atual, o espaço do jornalismo no imaginário.

Ser tratado como produto convencional, que se compre e vende, causou uma desassociação entre que é o próprio jornalismo e o que é o seu suporte: a revista, o jornal impresso ou mais atualmente o acesso pago à serviços premium. Estes suportes em sua grande maioria chegam até nós abarrotados de anúncios publicitários e eles próprios passam a se adequar à eles e não ao jornalismo. Os corpos que compõe uma redação jornalística distribuem-se entre repórteres, escritores, editores, diagramadores etc, mas não à um publicitário que produz todas aqueles anúncios que preenchem muitas vezes mais da metade da revista/jornal. Em alguns casos existem publicitários do próprio veículo voltado para promover suas vendas, mas os anúncios dos quais falo são espaços e correspondem a uma forma de aumentar as margens de lucro. E amarrar as pautas, afinal ao publicar uma matéria que critique um dos seus anunciantes corre-se o risco de perdê-lo. O jornalismo portanto não é o produto material (ou digital).

O que é o jornalismo então?

Não existe uma resposta pronta, mas nestes casos de financiamento coletivo onde também há a participação  do público (além do apoio financeiro) é possível voltar-se ao processo do jornalismo. Ao ser feito ele reúne materiais diversos, fontes como relatos de testemunhas, gravações de áudio, vídeo, fotografia, debate (na internet realizado principalmente por comentários) e rede de distribuição, onde os interessados aumentam a dispersão do material produzido afim de gerar efeitos, que vai desde o informar até buscar transformação política – noticiar a morte de um manifestante por um policial, especialmente acompanhado de vídeo, causa efeitos políticos.

Para o financiamento coletivo do jornalismo eu apontaria esta desassociação do jornalismo como produto como o grande desafio. Apoiadores de campanhas jornalísticas não receberão apenas uma revista, jornal ou acesso antecipado à uma matéria como recompensa ao seu apoio e também não fazem apenas uma doação, como um ato de caridade. Eles participam do processo de seleção do que será ou não noticiado. No caso da Reportagem Pública houve ainda uma participação na seleção dos projeto, mas mesmo em outros formatos de campanha  esta participação na seleção está implícita. Ao financiar o projeto A notícia por quem vive: recontando a história da CDD o apoiador determinou que aquelas histórias da Cidade de Deus seriam contadas, o que não aconteceria sem seu apoio.

O mesmo não pode ser dito ao comprar uma revista semanal. Que determina suas pautas são os editores e ainda que estas escolhas obedeçam demandas de mercado – caso a revista não atenda o desejo de seus compradores/assinantes suas vendas caem – é um processo que leva tempo e no qual o indivíduo tem pouco poder, diferentemente do que acontece num financiamento coletivo, onde a resposta é obtida ao fim da campanha de levantamento de dinheiro (ou mesmo antes) – a reportagem será ou não feita e só!

A Agência Pública anunciou que lançará na próxima semana (com início no dia 18) uma segunda edição do Reportagem Pública e já busca recorre à sua base de leitores e potenciais apoiadores para sua campanha de financiamento coletivo.

Que o ano de 2015 acene positivamente ao jornalismo cidadão e ao seu financiamento coletivo, que o público participe do seu processo e que transformem-se as percepções.

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Content Used to Be King. Now It’s the Joker.

Why I’ve decided to stop taking “content” gigs and other journalists should, too.

It’s been about five years now since someone first asked me if I’d be interested in producing “content.” At the time, it didn’t seem all that different from what I was already doing—interviewing sources, distilling information down into interesting stories or helpful tips. Sure, it was for a microsite sponsored by a big company (Nissan), but it was on a topic I knew well (sustainable transportation) and the corporate sponsor didn’t even want their name used. Or mine, for that matter. It wasn’t advertising or marketing as we’ve thought of it in the past. In some ways, it was better. CEOs had realized the value of being associated with interesting, useful information as opposed to traditional promotional material, and their marketing directors and publicists understood that journalists were probably better at producing this stuff than copywriters.

At first, it seemed like an okay way for a journalist to make an extra buck, too. Content paid well and steadily, after all. Journalism, not so much. And it was pretty easy work, done for companies that aren’t so terrible. Plus I could keep my byline out of it so no one needed to know.

But within a few years, it had turned into my best/saddest story of how fucked up media is today:

From June 2011 to April 2013, I was a contributor to Forbes.com. When I started, most of the other contributors were journalists, too. But by the time I stopped, we were in the minority. Most of us had been driven out by a combination of the abysmally low pay—$50 a post, which doesn’t really allow for the sort of reporting time required to write a decent story—the click-bait incentives (a $500 bonus if you hit 30,000 uniques, plus a penny more for each unique after that), and the fact that the site had been all but taken over by CEO “thought leaders” and industry shills. But wait, that’s not the punchline. It’s this: Over the past year, I’ve contributed a half dozen more stories to Forbes.com. Not under my own name, but as a ghost writer for a couple different CEOs. For that work I was paid—no exaggeration— TEN times what Forbes ever paid me to write for its site, but Forbes paid nothing for those pieces. That’s the new media system, with “content” at its core. And by the way, it’s not just Forbes. My ghostwritten posts have appeared on VentureBeat, Pando Daily*, Entrepreneur.com, and I’m sure a few more that I’m forgetting. [*Note: Pando Daily has since released an official tweet regarding its strict no-ghostwriting policy and has removed the post referenced above.]

Content production has become big business. Not a week goes by that I don’t hear from someone interested in whether I ever “do content.” The old adage “content is king” has been widely embraced by companies of various sizes and industries. Corporations realize the value of good writing and they’re willing to pay for it. Increasingly, they’re more willing to pay for it than advertising, which is more obviously promotional. Meanwhile, publishers are looking for ways to have more and more content (feeding the goat) for less money, because more content means more page views, which enables them to squeeze a few more drops of blood from the stone of online ad sales. So journalists are getting paid more, publishers have stories, and companies get credibility-boosting content. What’s the problem? There are a few. I made a list:

  1. It’s not real reporting. Companies willing to pay me for my work require that it has a specific, promotional viewpoint. Which makes me feel shady and unethical, and ultimately makes me hate myself and the work I’m doing.
  2. It’s not marked as advertorial, but it is. You are being sold to and lied to even more often than you realize, and by even the most established and credible of publications. The media outlets you trust are under such (self-imposed) pressure to serve up more and more content that they’ve turned their sites into promotional platforms.
  3. I’m selling my best ideas for bargain prices. Yes, companies mostly pay more than media outlets, but you know what? I only come up with about ten really great story ideas a year and if I attribute six of them to someone else—even at, say, $1,000 each—I’m not left with much.
  4. I’m tired of making rich, white dudes seem more thoughtful than they are. Yeah, I said it. Something about this whole game smacks of sexism, on top of the usual “let them eat cake” attitude corporate types have toward creative types in general (“I know! Why don’t we hire a journalist to write this think-piece? They’re all desperate for cash, they’d be happy to take this on for way less than we pay anyone else.”) Most of the ghost writers and content producers I know are women, ditto the journalists-turned-internal editors and “content strategists” for companies, and 90 percent of their work is for male CEOs. There are various factors at work here, of course. Founding and leading a successful company entitles one to a certain amount of cachet and that’s just giving credit where it’s due. Plus there are legitimate thought leaders in every industry, including media and journalism (although they’re all also mostly white dudes). But in addition to all that, underpinning this new content world is an unsettling image of a bunch of women scurrying around behind the scenes to make the boss-man look good, and an even more unsettling message: Your ideas will only be taken seriously if they are articulated by a white, male CEO.
  5. I just can’t continue to contribute to the demise of my own profession. Every bit of content I agree to produce feels like a tacit agreement that the only value journalism has any more is to make CEOs and companies look good. I don’t believe that and I can’t keep behaving as though I do.

It’s not that I don’t see the value in executives writing about their perspectives and their work. I’ve worked with plenty of really smart CEOs (that’s why I took these gigs in the first place), and their take on things is interesting and well worth a read, especially in business publications. I’d just prefer to see them writing more of it themselves (okay maybe with some help—let’s face it, not everyone can string sentences together convincingly), and sticking to their own areas of expertise. I’d also like to see less space being given to these stories than to unbiased, reported work. These pieces should flow naturally as an outgrowth of a person’s experience and expertise, they should not be a whole additional job for either the executive or, as is the case now, the person they hire to impersonate them. The trouble really begins when marketing departments and PR firms push CEOS for a blog post a week—that’s something no CEO worth his or her corner office has time for, nor should they—and when they get sucked into thinking they need to philosophize on topics well outside their purview.

As for me, I’ve decided I’m done being part of the problem. I will never again pen a “thought leadership” piece or a corporate blog post. I refuse to have even one more conversation in which I explain to a publicist or CEO why I will not connect them with editors I know, or why it would be impossible for their “contributed content” to appear in The New Yorker. I can’t take it anymore. I would rather devote my time to projects (like the one I co-founded here, see now I’m promoting my own shit) that are trying to figure out a way to make real journalism pay real journalists a real living wage. And hey, we’re also realists, so we’re forging partnerships and making great stories available with a Creative Commons license to address publishers’ need for more free content.

If I take a pay cut in the meantime, I’d rather supplement my income with part-time work outside the writing profession. I’ve worked as a waitress, babysitter, tutor, barrista, grocery bagger, pharmacy clerk, and dog walker. I’ve got more than enough money-making skills and experience to pick up jobs that don’t make me feel like I’m selling myself and other journalists out. [For the record, I’ve also got rent and bills and childcare to pay, and no trust fund, so don’t go there.]

I know that sounds a little self-righteous and I don’t intend it to be. I realize everyone has bills to pay and I am not trying to crap on how anyone chooses to do that. Life is hard enough without the ethics police raining on your content parade. But I would encourage journalists to think twice before taking certain types of content-production gigs. From here on out, I’m asking myself the following questions when a request comes my way: Does it require that I generate ideas that someone else will then lay claim to? Does it replace a story that would otherwise have been assigned to a journalist and paid for by the media outlet? Is it work that will appear in an outlet I’d quite like to write for under my own byline? If the answer is yes to any or all of these, I turn the work down, and I’d encourage other journalists to, too, if they can afford to.

Maybe if we all jump off the “content” bandwagon, publications will stop giving space away to companies. Maybe they’ll start thinking along the lines of, “Hey! Do we really need 30 or more new stories a day on our site? Are those SEO results amounting to any real bottom-line benefit? Is anyone even reading all this stuff?” And maybe CEOs and their publicists will stop worrying about establishing themselves as thought leaders in the media, and actually be thought leaders. You know, in their actual industries, writing one or two really thoughtful, great pieces per year. Maybe we can even get back to a place where media outlets run fewer, better stories, written by journalists who are paid fairly, edited by staff who aren’t being asked to edit an insane amount of copy every day, and read by people who appreciate quality over quantity and are pretty tired of the endless content cycle themselves. Sounds nice, right?

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Os Pré-Cogs estão chegando! O fim da exigência do Diploma de Jornalismo abre novas formas de lutas pós mídias digitais.

por Ivana Bentes para Carta Capital no dia 186\2009(texto já fora do ar, por isso sem link)

Finalmente caiu o diploma de jornalista! Em votação histórica no Supremo Tribunal Federal.

O fim da exigência do diploma para se exercer o jornalismo no Brasil (como em tantos paises do mundo inteiro) abre uma série de novas questões e debates sobre o campo da Comunicação pós-midias digitais, bem mais interessantes que o velho muro das lamentações corporativas. Agora, será necessário constituir novos “direitos” para jornalistas e não-jornalistas, free-lancers, blogueiros e midialivristas terão que inventar novas formas de lutas, comuns.

O fim do diploma tira da “invisibilidade” a nova força do capitalismo cognitivo, as centenas e milhares de jovens free-lancers, autônomos, midialivristas, inclusive formados em outras habilitações de Comunicação, que eram impedidos por lei de fazer jornalismo e exercer a profissão e que, ao lado de qualquer jovem formado em Comunicação, constituem hoje os novos produtores simbólicos, a nova força de trabalho “vivo”.

Vamos finalmente sair do piloto automático dos argumentos prontos “de defesa do diploma” que sempre escamotearam alguns pontos decisivos:

  1. O fim da exigência de diploma para trabalhar em jornalismo não significa o fim do Ensino Superior em Jornalismo, nem o fim dos Cursos de Comunicação que nunca foram tão valorizados. Outros cursos, extremamente bem sucedidos e disputados no campo da Comunicação (como Publicidade) não tem exigência de diploma para exercer a profissão e são um sucesso com enorme demanda. A qualidade dos cursos e da formação sempre teve a ver diretamente com projetos pedagógicos desengessados, com consistência acadêmica, professores de formação múltipla e aberta, diversidade subjetiva e não com “especificidade” ou exigência corporativa de diploma.
  2. As empresas de jornalismo e comunicação são as primeiros a contratarem os jornalistas com formação superior. NA UFRJ, por exemplo, os estudantes de Comunicação e Jornalismo são “caçados” pelas empresas que dão preferência aos formados, com nível superior em Comunicação, por que mudariam?
  3. Esse papo de “quem é contra o diploma faz o jogo do patrões”, é uma velha ladainha, repetida no piloto automático da frases feitas. Raciocínio que é bem mais conservador e retrógrado que o próprio discurso das empresas/mercado que precisa empregar quem tem formação de qualidade. Que precisa de profissionais qualificados,capazes de entender os novos ambientes pós-digitais, capazes de fazer redes e de inovar em diferentes campos.
  4. Os jornais já burlam a exigência de diploma pagando os MAIORES salários da Redação aos não-jornalistas, cronistas, articulistas, editorialistas, muitos SEM diploma (a exigência de diploma nunca alterou esse quadro!). As Universidades não precisam formar os “peões” diplomados, mas jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e singularidade, dentro e fora das corporações, não profissionais “para o mercado”, mas capazes de “criar” novos mercados, jornalismo público, pós-corporações.
  5. Nada justificava a “excepcionalidade” do diploma para os jornalistas que criou uma “reserva de mercado” para um pequeno grupo e que diminuía a empregabilidade de jovens formados em cinema, rádio e TV, audiovisual, publicidade, produção editorial, etc. proibidos pelo diploma de exercer…..jornalismo.

Até agora, nenhuma entidade corporativa defendeu nem pensou em uma SEGURIDADE NOVA para os free-lancers, os precários, os que não tem e nunca terão carteira assinada. É hora das associações, federações, sindicatos mudarem o discurso do século XIX e entrarem no século XXI buscando uma nova forma de SEGURIDADE PARA OS PRECÁRIOS, OS NÃO DIPLOMADOS, OS MIDIALIVRISTAS, o fim do diploma aponta para essas novas lutas.

O raciocínio corporativo constituiu até hoje uma espécie de “vanguarda da retaguarda”, discurso, fabril, estanque, de defesa da “carteira assinada” e “postos de trabalho “, quando no capitalismo cognitivo, no capitalismo dos fluxos e da informação o que interessa é qualificar não para “postos” ou especialidades (o operário substituível, o salário mais baixo da redação!), mas para CAMPOS DO CONHECIMENTO, para a produção de conhecimento de forma autônoma e livre, não o assujeitamento do assalariado, paradigma do capitalismo fordista.

A idéia de que para ter “direitos” é preciso se ‘assujeitar” a uma relação de patrão/empregado, de “assalariamento”, é uma idéia francamente conservadora!

O precariado cognitivo, os jovens precários das economias criativas estão reinventando as relações de trabalho, os desafios são enormes, a economia pós-Google não é a Globo fordista, não vamos combater as novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da revolução industrial.

Devemos lutar não por cartórios do século XIX, mas pelos novos movimentos sociais de organização e defesa do precariado, lutar pela AUTONOMIA fora das corporações, para novas formas de organização e seguridade do trabalhador livre do PATRÃO E DA CORPORAÇÃO.

A General Motors nos EUA e as fábricas fordistas não vão falir sozinhas, levarão juntos o capitalismo fabril, patronal, corporativo e o arsenal conceitual, os discursos, que não conseguem mais dar conta, nem explicar, as mudanças.

Acabou o diploma de Jornalismo, mas o diploma/formação de Comunicação nunca foi tão importante! Vamos agora pensar o jornalismo público, o jornalismo do comum! E, antes que eu me esqueça: isso não tem nada a ver com “neoliberalismo”, vamos parar de repetir duas ou três frases clichês!

Existem hoje “revoluções do capitalismo” (titulo do belo livro de Mauricio Lazaratto, inspirado em Antonio Negri e Gilles Deleuze).

Não é a toa que a garotada prefere ir para as Lan Houses ao invés de entrarem para as corporações.

A Comunicação e o jornalismo são importantes demais para serem “exclusivas” de um grupo de “profissionais”. A Comunicação e o jornalismo hoje são um “direito” de todos, que será exercido por qualquer brasileiro, com ou sem diploma.

O capitalismo cognitivo está constituindo um novo processo de acumulação globalizado, que tem como base o conhecimento, as redes sociais, a comunicação, o “trabalho vivo” (Negri. Lazaratto. Cocco), existem, claro, novas formas de exploração e assujeitamento, mas também novas formas de luta!

Adeus ao proletariado fabril, diplomado ou não, viva o precariado cognitivo, os Pré-Cogs que estão chegando e são a base da comunicação, base das tecnologias da informação, base da economia do conhecimento, que alimenta a inovação e as novas lutas.

Viva a formação superior em Comunicação, em Jornalismo, viva as Escola Livres de Jornalismo e as novas dinâmicas mundanas de ensino/aprendizado e trabalho “vivo”.

Ivana Bentes é professora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, é formada em Comunicação com habilitação em jornalismo, especialização em Filosofia, autodidata em audiovisual e estuda novas mídas on-line. Twitter @ivanabentes

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Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet

Em junho, o australiano Julian Assange, fundador e editor-chefe do WikiLeaks, completou um ano como exilado político na embaixada do Equador em Londres. Sem muitas perspectivas de conquistar sua liberdade física em um curto espaço de tempo, o ciberativista não deixou de defender a liberdade civil na rede. Prova disso é que, mesmo diante do impasse diplomático em que se encontra, Assange lançou, em fevereiro de 2013, a edição brasileira de seu primeiro livro:Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, pela Boitempo Editorial. Na publicação, permanece em defesa do ideal que o tornou famoso (e perseguido): “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”.

Trecho de Tem um soldado embaixo da sua cama,

resenha publicada por Sarah Costa Schmidt, no Zazuli

Basta clicar na imagem abaixo para fazer o download da versão pdf(pirata) do livro.

Cypherpunks: Liberdade e o Futuro da internet - Clique na imagem para baixar.

Cypherpunks: Liberdade e o Futuro da internet – Clique na imagem para baixar.

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Jornalismo-Ciborgue

Arte de Mark Allen Miller para a revista Wired.

They said Ned Ludd was an idiot boy
That all he could do was wreck and destroy, and
He turned to his workmates and said: Death to Machines
They tread on our future and they stamp on our dreams.
Robert Calvert in Ned Ludd

O medo das máquinas tomarem o espaço dos seres humanos vem já de algum tempo. Dentro de um contexto capitalista de trabalho, foi bem personificado na figura de Ned Ludd, uma figura folclórica que num surto de raiva atentou contra máquinas de tecelagem, realizando o gesto simbólico de início de uma guerra às máquinas, antes que estas tomassem o espaço do trabalhador . É um medo esperado de alguém vive sob a égide de um sistema econômico em que o valor humano se dá pela capacidade de vender sua força de trabalho. Caso uma máquina faça o mesmo que o trabalhador faz com um custo menor, ele será descartado e condenado à marginalidade, até que se faça útil (produtivo) novamente.

Do surgimento do Jornalismo profissional

No final da primeira década deste milênio nasceram algumas empresas propondo criar robôs-jornalistas, entre elas a StatSheet (em 2007)  e StatMonkey (em 2009) . Ambas foram criadas para a cobertura de eventos jornalísticos, notícias que por padrão são bastante formatadas e previsíveis na estrutura, segundo Steven Levy, em um artigo na Wired:

Most news stories, particularly about subjects like sports or finance, hew to a pretty predictable formula, and so it’s a relatively simple matter for the meta-writers to create a framework for the articles.

O que permite a robotização do processo de produção de texto jornalístico não é próprio apenas do jornalismo esportivo, mas é da prática profissional do jornalismo, e nos remete à sua invenção. Jean Chalaby (2004) a situa no século XIX, quando o jornalismo torna-se um gênero distinto e estabelecem-se normas e valores discursivos, entre eles a neutralidade e objetividade. Isso em meio a uma disputa entre os modelos francês e os modelos anglo-americano (e britânicos, em menor medida) – Prevost-Paradol, um renomado autor da época, afirmava que o primeiro modelo era “em geral, pobremente informado” e deixava muitas “coisas vagas e muita informação insuficiente” (Chalaby, 2004, pp30-31), enquanto no segundo havia a “extensão e o rigor da sua informação” como característica mais importante.

Em um levantamento Chalaby nos trás que a informação nos jornais anglo-americanos e britânicos era em relação aos correspondentes franceses: mais abundante; atualizada com maior frequência; mais acurada, completa, objetiva e neutra (os jornais franceses tinham por procedimento comentá-las segundo os posicionamentos do jornal); mais internacional (devido à maiores recursos para manter correspondentes internacionais); mais factual (os ditos fatos se perdiam em meio aos comentários do redator); e, por fim, mais crível.

Ao nos apresentar estes fatos, Chalaby não problematiza o que é informação. Tiziana Terranova, no primeiro capítulo de sua obra Network Culture, relê algumas proposições de Claude Shannon sobre o que é informação que podem nos ajudar a pensar estes problemas anteriores:

1. Informação é o que se destaca do ruído

A opinião do redator francês seria o ruído, já a objetividade e a factualidade do redator anglo-americano e britânico seriam mecanismos para combatê-lo.

2.  A transmissão de informação implica a comunicação e exclusão de alternativas prováveis

Existem informações que são relevantes ao texto, no modelo anglo-americano e britânico, que são dados, informações que mais se aproximem das ideias de neutralidade e objetividade, então aqui se fecham as possibilidades, se excluem as alternativas não-prováveis ou não-desejáveis, como opiniões do jornalista – exceto se descriminadas e para isso foi criada a categoria duvidosa “jornalismo de opinião”.

3. Informação implica numa relação não-linear entre o micro e o macro

Na impossibilidade da representação da totalidade dos acontecimentos, descreve-se o macro, tanto através de uma modulação da informação (o que aqui se refere ao suporte e ao formato do próprio texto jornalístico), quanto pela dimensão dos jornais – Chalaby (2004, pp31-32) diz que os jornais anglo-americanos e britânicos tinham, até 1890 de 10 à 16 páginas, enquanto os franceses chegavam à um máximo de 6.

Remontar estes eventos, sabendo que o modelo anglo-americano e britânico prevaleceu, nos ajuda a entender a formação do jornalista profissional atual e pensar nas implicações disso no processo de robotização da produção jornalística. Num contexto em que produzir notícias jornalísticas é trazer compilações de dados na forma de prosa não é de se espantar que uma robô possa fazer o trabalho do jornalista – é um trabalho mecânico por definição.

O Jornalista-Humano, o Jornalista-Robô e o Jornalista-Ciborgue

O jornalista Levy coloca que robôs têm vantagens das quais o jornalista humano poderia se beneficiar, como sua memória e a capacidade de trabalhar com dados, suficientemente robustas para lidar com incontáveis variáveis, compará-las e extrair implicações (e não conclusões) disso. O robô é capaz de lidar com um campo textual que está além do alcance do jornalista-humano, que, antes do advento dos computadores, tinha que (tentar) lidar com ele. Agora com o ingresso dos robôs na redação jornalística o jornalista-humano pode passar a se ocupar de outra tarefa de escrita. No caso do jornalismo esportivo, enquanto o jornalista-robô se preocupa com a somatória das distâncias rebatidas por um rebatedor ao longo de toda temporada passada e a constância em suas trajetórias, o jornalista-humano pode se ocupar de questões sensíveis, por exemplo a preocupação causada por uma proposta de mudança do patrocinador do time, ou um conflito religioso dentro da equipe influenciando todos ao longo da temporada – ou ainda questões mais ligadas a crônica jornalística.

O que Levy sugere é uma relação simbiótica em que a máquina fornece a capacidade de processamento de dados e o humano seus dotes de contador de histórias. O jornalista-humano estenderia suas capacidades, integrando a máquina dentro de si – o jornalista, não o homem. O jornalista-humano pararia de atuar como tal e tornaria-se um jornalista-ciborgue, cujo os limites do seu ser não estão mais contidos apenas no invólucro de carne que é uma parcela sua, mas nas conexões que este faz com a máquina e que a máquina faz com o mundo.

Fora de um contexto capitalista onde a quantidade produzida e a possibilidade de acúmulo de capital através dela são determinantes do processo de produção, seria uma relação interessante para ambas as partes, porém não é o caso. Se há a manutenção deste modelo objetivista e neutro do jornalismo, o contador de histórias terá que buscar outra profissão, pois o robô tende a ter o custo diluído na sua ausência de encargos trabalhistas e reclamações.

O jornalismo profissional, se afirmando nos mesmo e ultrapassados valores de objetividade, neutralidade/imparcialidade e produtividade, parece caminhar rumo ao desaparecimento do jornalista-humano.

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Spot.us – Uma plataforma de Crowdsourcing Jornalístico

O Spot.us é uma plataforma desenvolvida em código aberto(disponível no Github) fundada por David Conh, jornalista que tem em seu currículo, entre outras coisas o envolvimento como editor no Newassignment.net (junto de Jay Rosen) e na organização do Networked Journalism Summit (junto com Jeff Jarvis). O fundo para o início do projeto veio da Knight Foundation.

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The Data Journalism Handbook – para baixar

Este livro  foi publicado no meio deste ano e vou traduzir abaixo um trecho dele  falando por si o que pretende ser e disponibilizar um link para download(na imagem):

O que este livro é (e o que não é)

Este livro pretende ser um recurso útil para qualquer um que acredita estar interessado em tornar-se um jornalista de dados ou apenas que esteja explorando o Jornalismo de Dados.

Muitas pessoas contribuíram para escrevê-lo e tentamos deixar, através da nossa edição, que brilhassem suas vozes e pontos de vistas diferentes.  Esperamos que ele se pareça com uma conversa rica e informativa sobre o que o Jornalismo de Dados é, porque ele é importante e como fazê-lo.

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